|     
 
Enquete
Você concorda com a retomada das obras da usina Angra 3?
Sim
Não
Enquete
Você sabe o que fazer com o lixo eletrônico?
Sim
Não

 

Uma chance para a Mata Atlântica

A idéia de ligar pedaços isolados de floresta para preservar a natureza ganha força no sul da Bahia e norte do Espírito Santo

Texto: Sérgio Adeodato

foto: Adriano Gambarini
Fragmentos da Mata Atlântica ainda podem ser encontrados no Espírito Santo, como em Sta Maria do Jetibá, no norte do estado

São cinco horas da madrugada e o sol está prestes a nascer no vale do rio Mucuri, extremo sul da Bahia. “Está ouvindo? É o assovio do gavião-de-cauda-curta”, avisa Paulo de Tarso Antas, biólogo da Fundação Pró-Natureza (Funatura). A seu lado, o colega Marcos Aires chama a atenção para outro som: “Ouve só o pica-pau-rei cutucando a madeira”. Daí a pouco, quando a claridade da manhã substitui a escuridão nesse pedaço da Mata Atlântica, já é possível distinguir uma sinfonia de pássaros.O analista de pesquisa José Francisco Pissinati, com um microfone na mão e jeito de engenheiro de som, encarrega-se de registrar tudo: o alarme do inhambu-chintã, os resmungos da pomba asa-branca, os sussurros amorosos da gemedeira e muitos outros.

Na mesma hora, em pontos próximos da floresta, a equipe da expedição inspeciona 60 redes estendidas para capturar pássaros. O objetivo é marcar os animais com anilhas de identificação e depois soltá-los. Trata-se de um trabalho importante, pois vai fornecer pistas sobre a saúde do que resta da Mata Atlântica, submetida a pressões de toda ordem. As informações são preciosas para um projeto ainda mais ambicioso: a interligação dos pedaços isolados da mata de modo a formar uma faixa verde contínua indispensável à preservação da biodiversidade de um dos mais ameaçados biomas brasileiros.

Essa é a idéia por trás do conceito de corredores de biodiversidade que se tornou uma bandeira importante dos defensores do meio ambiente no Brasil desde a segunda metade da década de 1990. Na época, integrantes do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais (PPG7) pensaram em prevenir e reduzir a fragmentação das florestas brasileiras por meio de uma rede composta de áreas protegidas e conectadas entre si. O objetivo era aumentar o que os biólogos chamam de fluxo genético entre populações de várias espécies, além de favorecer a polinização, a dispersão de sementes e o ciclo de água e nutrientes. O conceito ganhou força e, hoje, já existem planos para seis corredores de biodiversidade no Brasil.

Um dos mais importantes pela riqueza de sua flora e fauna é o Corredor Central da Mata Atlântica, que se estende do Recôncavo Baiano ao sul do Espírito Santo. Entre outros exemplos de sua importância, pode-se citar justamente as aves: 50% das espécies que só existem na Mata Atlântica habitam o corredor central. Estudar essas aves é a tarefa do pesquisador Paulo de Tarso, coordenador de uma equipe de 11 técnicos que percorrem nove diferentes trechos da Mata Atlântica, localizados no entorno dos extensos plantios de eucaliptos mantidos entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo pela Aracruz Celulose. O convênio com a Funatura prevê uma avaliação ambiental das reservas naturais e reflorestadas da empresa.

“Como resultado do projeto com as aves, propomos a aplicação de novos métodos de plantio e corte de eucaliptos para a manutenção de um denso subbosque de vegetação nativa entre as árvores”, explica Paulo de Tarso. “Assim foi possível manter o fluxo de espécies animais, como a jandaia, entre as áreas de plantio e os trechos que restaram da Mata Atlântica e vice-versa.” Ele explica que os cordões de vegetação nativa que conectam pedaços de floresta são um dos componentes do corredor de biodiversidade, mas não o único. Pastagens, cultivos e áreas reflorestadas também fazem parte. A participação das comunidades é essencial, pois se acredita que a geração de renda seja um fator importante para reduzir a pressão sobre a floresta.

foto: Divulgação
Suindara encontrada nas matas do entorno de plantios de eucalipto
Como um jogo de montar

Para os especialistas, a criação do corredor é como um jogo de quebra-cabeças, em que cada peça se encaixa para compor um mosaico que adquire sentido quando montado. O conjunto das áreas cobertas com Mata Atlântica dentro das propriedades de empresas de papel e celulose é uma dessas peças. “Essas empresas têm mais de 250 mil hectares de floresta nativa em suas terras, o que equivale a toda a área de parques e reservas ecológicas federais e estaduais existentes no Corredor Central”, afirma Luiz Paulo Pinto, pesquisador da Conservação Internacional do Brasil. “A preservação dessas florestas é decisiva para o sucesso do projeto.”

Hoje, é comum ver biólogos e engenheiros de grandes empresas empenhados em construir “pontes” verdes entre florestas virgens separadas por cultivos de eucalipto e pastagens. A Aracruz é apenas um exemplo. “Estamos trabalhando para reflorestar vales de rios degradados pela erosão e construindo ligações entre grandes blocos de floresta aqui no Espírito Santo”, conta Ludimila Pugliese, do Instituto BioAtlântica, que trabalha com a empresa fornecendo assistência técnica para projetos de reflorestamento e criação de corredores de biodiversidade.

A empresa está criando cinco RPPNs (reservas particulares de patrimônio natural) no norte do Espírito Santo. Essas áreas, apesar de privadas, possuem status de reservas ecológicas e são destinadas à proteção da fauna e da flora. Em troca, os proprietários têm isenção de Imposto Territorial Rural e outros incentivos. Há também vantagens indiretas, como explica Robert Sartorio, do Centro de Pesquisa e Tecnologia da Aracruz. “A conservação de recursos naturais, como água, solo e biodiversidade, é fundamental para que os nossos cultivos e demais operações se sustentem no longo prazo”, exemplifica.

Sartorio conta que duas reservas, previstas para serem criadas em 2006, além das demais áreas de preservação da empresa, têm a função de auxiliar a ligação da Reserva Biológica de Sooretama, vinculada ao Ibama, à Reserva Natural da Vale do Rio Doce em Linhares, consideradas duas das maiores áreas de Mata Atlântica no centro-norte capixaba, e assim permitir o fluxo de mamíferos, aves e insetos entre eles. É um exemplo dos “minicorredores” projetados para compor a faixa maior do Corredor Central. Ao norte, na região do município baiano de Valença, outro minicorredor, projetado pela Organização de Conservação de Terras do Baixo-Sul da Bahia (OCT), comprova que essa idéia está sendo disseminada.

foto: Aracruz Celulose
Área de floresta vizinha de eucaliptos no norte do Espírito Santo
No Baixo-Sul baiano, uma área-piloto de cerca de 300 hectares integra reservas particulares de cinco propriedades. Com apoio de organizações internacionais e parcerias regionais com proprietários, empresas e governo, a OCT pretende a longo prazo promover a interligação de 33 reservas de modo a formar uma floresta contínua de 3.314 hectares. Será uma das maiores faixas verdes de Mata Atlântica, com um investimento de 
R$ 606 mil, 20% coberto pelos proprietários e o restante pelo Ministério Público da Bahia e fontes internacionais. Entre os parceiros, estão incluídos oito assentamentos de reforma agrária do MST (Movimento dos Sem-Terra) que também vão manter áreas de floresta intocável. “Nossa estratégia é esticar as florestas no sentido sul até atingir aquelas que estão crescendo no sentido norte do estado”, explica Jorge Velloso, da OCT.

O papel das comumidades

O corredor de Mata Atlântica prevê a utilização sustentada da floresta com a extração de piaçava para artesanato das comunidades locais. É o que pretende a Veracel Celulose, empresa que começou a mapear a existência de palmeiras que fornecem essa fibra em suas terras no extremo-sul baiano. Desde 2003, o Programa Mata Atlântica da empresa recuperou mais de 1.100 hectares de mata nativa nos quais foram utilizadas 150 espécies de plantas. Na RPPN Estação Veracruz, na região de Porto Seguro, maior reserva particular da região, com 6 mil hectares, foi construído um centro de pesquisas da biodiversidade da região. A empresa planeja plantar mais 400 hectares de floresta na bacia do rio Caraívas, para conter o avanço do desmatamento.

A iniciativa faz parte do projeto do Instituto Cidade, Associação dos Nativos de Caraívas e Grupo Ambiental Natureza Bela, ONGs que mobilizam as comunidades locais para a preservação das espécies nativas. “A recuperação da cobertura vegetal se integra ao projeto de criação de corredores de biodiversidade”, explica Paulo Dimas, do Instituto Cidade. “O principal deve ligar dois parques nacionais: o Monte Pascoal, ao sul; e o Pau-Brasil, ao norte.” Além desses, existe na região o Parque do Descobrimento que também integra o Corredor Central da Mata Atlântica.

Por enquanto, o resultado de todos esses esforços ainda está distante. “Pode ser que até 2009 ainda não tenhamos conseguido assegurar a conexão total do corredor norte e sul, mas então já terá sido demonstrado que isso é possível”, afirma Militão Ricardo, coordenador do Projeto Corredores do Ministério do Meio Ambiente. Ele explica que, entre 2006 e 2009, serão investidos no projeto R$ 45 milhões, vindos do Banco Mundial e do KFW (Banco Alemão de Crédito para Reconstrução). O dinheiro está sendo aplicado na criação de parques e de outras áreas protegidas e melhoria da fiscalização das florestas.

foto: Peter Milko/HG
Desmatamento ilegal para o corte de madeira de lei é séria ameaça ao projeto do corredor de biodiversidade
Cultivos agroflorestais

Um dos desafios enfrentados pelos promotores do corredor biológico é o envolvimento dos fazendeiros no projeto. Uma idéia é promover o cultivo de espécies agroflorestais, como o cacau de cabruca, na parte mais baixa dos bosques de Mata Atlântica; o café, sombreado por espécies nativas; e o eucalipto, de forma a permitir o crescimento de vegetação nativa entre as árvores. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, 70% dos trechos de floresta que ainda restam ao longo da faixa litorânea pertencem a particulares. “Sem a participação desses proprietários, o projeto de criar um corredor se torna impossível”, enfatiza Nilson Máximo, representante da ONG.

A SOS Mata Atlântica fornece mudas gratuitas para fazendeiros como parte do Clickárvore, programa de reflorestamento com espécies nativas desenvolvido via Internet. Cada click corresponde ao plantio de uma árvore custeado por empresas patrocinadoras. O sistema permitiu o plantio de 3,6 milhões de mudas em área equivalente a quase 2 mil campos de futebol. Um exemplo desse trabalho está na Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG), que também faz parte do Corredor Central da Mata Atlântica. A fazenda, propriedade do fotógrafo Sebastião Salgado, mantém um centro de educação e recuperação ambiental para transformar a área de antigas pastagens em floresta.

A paisagem coberta de árvores nativas chama a atenção nas terras de Antero Caliman, um dos maiores produtores brasileiros de mamão papaia. Um terço da área de suas propriedades, em Linhares (ES), reúne reservas de Mata Atlântica. “No passado, o negócio da família era cortar árvores para lucrar com madeira”, recorda o fazendeiro. "Os tempos agora são outros. Espero não ter acordado tarde demais.” O cultivo de espécies nativas agora é quase uma lei para o “rei do mamão”. Seu trabalho serve de modelo para toda a região.

Anthenor, o plantador de floresta

Fazendeiros restauram áreas deterioradas de pastos

“Aquele é um ipê, mais adiante tem um pé de angico. Depois, vou mostrar um cedro e um jacarandá – um dos meus preferidos.” Quando circula pela fazenda levando visitantes, Anthenor Pianna, de 68 anos, aponta para as árvores e fala o nome das espécies com o prazer de quem sabe que conservá-las é importante. A experiência começou em 1999, quando o empresário, um dos maiores comerciantes da região de Linhares (ES), pensou em tornar mais bonito o local onde planejava construir a sede da fazenda, à beira da lagoa Juparaná. A área necessitava reparos, pois estava degradada pela erosão de antigos pastos. O que era apenas um projeto paisagístico pessoal tornou-se um exemplo de conservação da natureza. O empresário já plantou 54 mil árvores nativas, cobrindo um terço da fazenda de gado. “Quando a floresta cresceu, a água dos córregos aumentou”, comenta Antenor. Ele compra 120 quilos de milho, mais mamão e banana, para atrair pássaros e macacos à floresta regenerada. “Os canários chegam em bando e minha mulher se zanga com a sujeira que deixam no granito da varanda de casa”, brinca.

Para reabilitar áreas degradadas

Reserva é centro de estudos sobre espécies nativas

A menos de duas horas de Vitória, em Linhares (ES), a Reserva Natural da Vale do Rio Doce se destaca como um centro de referência sobre a Mata Atlântica no país. São 220 km2 de floresta que abrigam 1.400 espécies de plantas, das quais 800 arbóreas, 400 espécies de aves e 102 de mamíferos. Ali funciona, há 25 anos, um programa de intercâmbio de estudos que agrega cerca de 200 pesquisadores do Brasil e de outros países. A reserva abriga também um centro de treinamento com recursos audiovisuais para serem utilizados por visitantes e escolas e para cursos de capacitação de professores das vizinhanças. A reserva dispõe de um herbário, laboratório de sementes e de madeira, posto meteorológico, coleções de frutas, sementes, insetos e madeiras. O viveiro produz 6,5 milhões de mudas, abastecendo a empresa, interessados na reabilitação de áreas degradadas e agricultores que desejam investir na recuperação de mata nativa. “Vamos fornecer mudas e assistência técnica para os próprios agricultores recuperarem os 450 mil hectares de mata ciliar hoje degradados no Espírito Santo”, afirma Renato de Jesus, gerente de Meio Ambiente da Vale.

Mudança de hábitos

Projetos sustentáveis integram população e poupam floresta

No município de Tancredo Neves, um dos mais pobres do Baixo-Sul da Bahia, pequenos agricultores aprendem a produzir mais e melhor, utilizando técnicas que não agridem a natureza, combinam com o projeto do corredor de biodiversidade e garantem a sobrevivência da população. Ali foi criada a Casa Familiar Rural, mantida com apoio da Fundação Odebrecht na fazenda Novo Horizonte, e destinada a jovens da região. Os alunos lavradores freqüentam a escola para ter aulas teóricas e práticas de agricultura e depois retornam para as roças de suas famílias, onde colocam em prática os conhecimentos recém-adquiridos. O objetivo é fazer desses jovens multiplicadores das novas técnicas e assim melhorar a produção e promover a mudança de hábitos de exploração destrutiva de recursos naturais. O resultado desse trabalho já está ocorrendo. A produção de mandioca do município aumentou de 8 para 14 toneladas por hectare. Com mais alternativas de renda, a madeira da floresta está sendo poupada. Duas fábricas, uma de farinha que não utiliza madeira nativa nos fornos e outra que beneficia o amido da mandioca para diversos fins industriais, são exploradas por cooperativas, beneficiando mais de 2 mil famílias. Em outros vilarejos, a Fundação desenvolve projetos como a criação de peixes em cativeiro.

Mapa

Assuntos Relacionados
O povo tranquilo da floresta
 
Imprime
E-mail