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O povo tranquilo da floresta

Ágeis e sociáveis, os muriquis são uma espécie curiosa e protegida pelos pesquisadores. O problema é que correm o risco de desaparecer.

foto: Luciano Candisani
Braços e cauda longos permitem ao muriqui saltar entre as árvores da Fazenda Montes Claros (MG) com agilidade e rapidez

O dia mal amanhece e já se ouvem os gritos, semelhantes ao relincho de um cavalo, vindos dos galhos mais altos das árvores da floresta cuidadosamente conservada da Fazenda Montes Claros, no município mineiro de Caratinga. São os muriquis, os maiores macacos das Américas e os maiores mamíferos nativos e exclusivos do Brasil. Bastante ágeis, eles se locomovem com extraordinária rapidez, erguendo sobre a cabeça os braços longos em movimentos pendulares. Os dedos, como ganchos, permitem que eles agarrem com firmeza até os galhos mais distantes. A cauda serve como um quinto membro. Com mais de um metro de comprimento, ela sustenta tranqüilamente o corpo dos animais pendurados ou serve como uma ponte entre as árvores.

Sob a luz ainda esmaecida da manhã, os muriquis partem em busca de comida – flores e frutas doces da mata, de onde retiram o néctar. Capaz de distinguir cores, os muriquis identificam facilmente seus alimentos prediletos. Os olhos frontais permitem a visão binocular, como nos animais de rapina. Com isso, conseguem avaliar com precisão a distância dos objetos – um atributo importante para quem vive de galho em galho e raramente desce ao chão.

foto: Luciano Candisani
A correria dos muriquis começa cedo em busca de alimento – flores e frutas
O que leva pesquisadores de vários países a declararem seu fascínio por esse bicho ameaçado de extinção é, vamos dizer assim, a sua extraordinária simpatia. Depois de mais de 20 anos de pesquisa, a americana Karen B. Strier, uma das maiores especialistas nesses primatas, ainda hoje se surpreende com a total ausência de agressividade e de dominância entre os indivíduos de um mesmo grupo. Essa característica, dizem os biólogos, é muito rara nos outros macacos sociais, como os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos. Entre os muriquis, designação dada pelos indígenas, querendo dizer “gente tranqüila”, machos e fêmeas têm o mesmo tamanho e se respeitam mutuamente. Quase nunca brigam ou apresentam comportamento agressivo.

E não apenas isso. Entre os muriquis, as demonstrações de afeto entre indivíduos de qualquer sexo ou idade são comuns. Membros do grupo se abraçam pendurados no mesmo galho. Os pesquisadores contam que até a reprodução, que costuma ser marcada por lutas sangrentas entre machos de outras espécies, é pacífica entre os muriquis. A fêmea escolhe o parceiro e os candidatos rejeitados aceitam a opção sem briga. Depois, ao lado dos filhotes, ainda assistem indiferentes às relações sexuais do casal.

Quando crianças, os muriquis recebem a ajuda das mães para saltar entre as árvores. Estas usam o próprio corpo para aproximar os galhos ou formar uma ponte necessária para a travessia. Durante os primeiros 8 meses de vida, os filhotes ficam presos ao ventre das mães, perto das mamas. À medida que crescem, ficam primeiro agarrados dos lados e depois nas costas, até se libertarem. Quando o grupo de muriquis se desloca, os machos ficam no centro e são os primeiros a receber alimento, enquanto a periferia é das fêmeas. Como no caso de outros primatas, os grupos normalmente não se misturam. Mas os animais são tolerantes entre si, a ponto de os pesquisadores não terem conseguido identificar uma hierarquia rígida entre os indivíduos.

foto: Luciano Candisani
Animais são amáveis e não é possível identificar uma hierarquia entre eles
Calcula-se que existam hoje no Brasil cerca de 1.300 muriquis, às vezes chamados de mono-carvoeiros, divididos em duas espécies. O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), de cara rosada, habita florestas mineiras e capixabas. No Rio de Janeiro, em São Paulo e no norte do Paraná, vive o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides), com sua característica cara preta.

Dizimados pelos caçadores e pela destruição de seu território – a Mata Atlântica –, os simpáticos muriquis sobrevivem em locais protegidos como a Fazenda Montes Claros. Ali, todo animal recebe um nome, o que confere grande precisão aos dados de comportamento e possibilita reconhecer a sua família segundo um código. Ao longo dos anos, foram identificados três grupos de muriquis mineiros, que receberam os nomes de Matão 1, Matão 2 e Jaó, de acordo com sua distribuição geográfica. Normalmente, quando chegam à idade reprodutiva, eles migram de um grupo para outro, o que é benéfico para a espécie, pois reduz a ocorrência de problemas de consangüinidade.




foto: Luciano Candisani
Quando têm sede, os muriquis podem descer até os riachos
Os muriquis-do-sul são mais difíceis de avistar, pois habitam uma floresta de vegetação mais densa. Disposta a comparar essa espécie com os primos do norte, Karen Strier ampliou suas pesquisas para o Parque Estadual Carlos Botelho, em São Paulo, onde calcula-se existam 800 desses animais. Hoje o veterinário Maurício Talebi Gomes e sua equipe estudam a espécie. Em 2000, Talebi criou a Associação Pró-Muriqui, de pesquisa e conservação. O interesse pela espécie visa, é claro, preservá-la, mas também o ecossistema em que vive. Ou seja, recuperar uma parte do que foi perdido da Mata Atlântica ao longo do tempo.













Sob a segurança da reserva

Animais sobrevivem em fazenda particular que se tornou local de estudos sobre a espécie

Há 20 anos era criada a Estação Biológica de Caratinga, nas terras da Fazenda Montes Claros, propriedade de Feliciano Miguel Abdala, em Minas. Vale lembrar esse nome. Ao contrário de muitos fazendeiros, “seu” Feliciano fez questão de manter a mata de suas terras intacta. Hoje, transformada em Reserva Privada do Patrimônio Natural (RPPN), a estação continua intacta, graças ao ideal de seu fundador, que nunca permitiu a retirada nem sequer de um galho da mata – tão inabalável era o seu amor pela natureza.
Nos anos 60, o pesquisador Álvaro Coutinho Aguirre, da Academia Brasileira de Ciências, adentrou as matas da fazenda atrás do muriqui, do qual pouco se sabia. O trabalho de Aguirre foi o primeiro dedicado a esse animal, inclusive com a localização de áreas onde ele poderia ser encontrado.
Hoje, os pesquisadores pretendem tirar o muriqui da lista de animais em perigo de extinção e, para isso, um dos principais desafios é aumentar a mata disponível. Um corredor ecológico – considerado atualmente uma solução adequada para a sua sobrevivência – pode garantir a proliferação de mais animais da espécie.

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