Amapá, um exemplo na conservação ambiental
O estado do Amapá, situado no norte do território brasileiro, mantém a biodiversidade e recupera a história e as tradições de sua cultura original
Edição Especial
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| A floresta intacta do Parque Nacional do Cabo Orange, no extremo norte do Amapá, revela ao fundo o farol, fundamental para a navegação na região |
A expressão “do Oiapoque ao Chuí”, que dimensiona o tamanho do Brasil, pode ser ampliada. Acima do Oiapoque, o rio e a cidade, o País vai até o Cabo Orange, avançando pelo Atlântico. A bela paisagem compõe uma parte do cenário do Amapá, cortado pela linha do Equador, no extremo norte do território. Não por acaso, o Amapá é o estado amazônico com cobertura florestal mais bem preservada do País. Nada menos que 17 unidades de conservação (12 federais e 5 estaduais) buscam manter intacto esse refúgio de belezas naturais temperado por tradições culturais únicas. O estado já foi disputado por franceses, ingleses e holandeses.
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| No sul do estado foram descobertos vários sítios arqueológicos, com dezenas de urnas antropomorfas da cultura Maracá |
Uma comissão de arbitragem garantiu a sua posse ao Brasil em 1900. Inicialmente incorporado ao Pará, o Amapá tinha o nome de Araguari. Elevado à categoria de território em 1943, seu desenvolvimento foi impulsionado pela descoberta de manganês. Em 1988, tornou-se um estado jovem, que tem no respeito à natureza e a suas populações tradicionais sua principal característica. O desafio é aliar a preservação ao crescimento econômico. O Amapá foi o primeiro estado a ter as suas áreas indígenas demarcadas. E hoje se orgulha da “amapalidade”, o sentimento de resgate das tradições que remontam às primitivas sociedades originárias da Amazônia.
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| Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru, a castanha do Brasil é a principal base econômica e de subsistência |
A riqueza protegida
O Estado tem o maior corredor de biodiversidade do país. Parques, reservas biológicas e terras indígenas servem de escudo contra o desmatamento e outras formas de degradação
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| Expedições científicas atravessaram a cachoeira do Desespero no parque do Tumucumaque. |
Quando o assunto é a conservação da natureza, o extremo norte do Brasil é uma região privilegiada. Com mais de 70% do território coberto por áreas protegidas, como parques nacionais, terras indígenas e reservas biológicas e extrativistas, o Amapá abriga um mosaico de paisagens naturais altamente biodiversas, que só agora começa a ser conhecida pela ciência. A opção de manter a floresta em pé, no entanto, representa um desafio para os amapaenses. Eles precisam criar condições para utilizar esse tesouro florestal como motor do desenvolvimento econômico e compromisso social, gerando renda e proporcionando um futuro mais promissor para a população, com responsabilidade ambiental.
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| A Reserva Biológica do Lago Piratuba é plana e possui trechos permanentemente alagados |
Garante-se que o potencial é grande. Na imensidão verde desse território que escapou das agressões humanas ao longo da história, os recursos naturais – base desse novo modelo de desenvolvimento – são fartos. Resultam das condições geográficas favoráveis do estado, localizado na descida do Planalto das Guianas. Essa elevação no relevo continental, que se estende pelo norte da América do Sul, envolvendo os territórios da Guiana, Suriname e Guiana Francesa, funciona como uma grande fonte de águas. Ali nascem vários afluentes do rio Amazonas e dos principais mananciais que banham o Amapá, a exemplo do rio Jari, na divisa com o Pará, onde se localiza a exuberante cachoeira de Santo Antônio. Já o rio Araguari é famoso pelas pororocas e suas ondas perfeitas que atraem surfistas de várias partes do País e do mundo para a sua foz.
A fartura de água é também alimentada pelas chuvas torrenciais, provocadas pela precipitação de nuvens de vapor levadas pelos ventos do Oceano Atlântico para o continente. A água abundante e a luz intensa da região tropical cortada pela linha do Equador aceleram o metabolismo da fauna e da flora e criam condições ideais para a multiplicação da vida. O vaivém das marés mais intensas, que marca o encontro do rio Amazonas com o oceano, aumenta o aporte de matéria orgânica e alimentos na natureza, contribuindo para a diversidade de espécies e de paisagens. Além das florestas densas de terra firme, existem no Amapá florestas de várzea, áreas alagáveis, zonas de cerrado e uma extensa faixa de manguezais bem preservados ao longo da costa oceânica.
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| Espécies rara, como o mucura |
Nesse cenário está sendo implantado o Corredor de Biodiversidade do Amapá, com aproximadamente 10 milhões de hectares, área maior do que a de Portugal, no qual são desenvolvidos projetos para interligar as diversas unidades de conservação mediante a criação de faixas verdes entre elas. Ao aumentar os espaços de floresta contínua protegida, o objetivo é promover o maior fluxo genético entre as espécies, mantendo o equilíbrio ecológico. Na primeira etapa de estruturação do corredor, em 2003, o governo estadual apoiou uma série de expedições científicas para identificar espécies e avaliar a riqueza da biodiversidade das áreas mais importantes, como o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque – o maior parque de floresta tropical do mundo, com mais de 3,8 milhões de hectares.
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| Espécies raras, como a maria-leque, foram achadas pelos biólogos no Tumucumaque. |
As pesquisas na floresta, que incluíram também o Parque Nacional do Cabo Orange, tiveram a participação do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá e de organizações não-governamentais, como o WWF e a Conservação Internacional. Além de novas espécies exclusivas do Amapá, os cientistas descobriram animais raros, como o lagarto Amapasaurus tetradactylus, que há 35 anos não era encontrado na região. Os dados biológicos serão anexados aos sociais e econômicos para planejar o uso adequado das áreas protegidas do corredor.
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| O sapo Atelopus spumarius habita a reserva do Iratapuru |
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| As florestas do Amapá abrigam primatas como o mico-de-cheiro |
Nesse trabalho, as comunidades extrativistas são incentivadas a aproveitar economicamente os recursos naturais sem destruir o ambiente. Mais valorizada, a floresta pode servir como escudo contra o desmatamento. Com essa intenção, o governo estadual criou, em 2006, a Floresta Estadual de Produção do Amapá, uma gigantesca área de 2,3 milhões de hectares, destinada à produção florestal por meio de técnicas sustentáveis. A meta é tornar o estado um grande fornecedor de produtos florestais certificados.
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| As partes mais planas preservam uma fauna que inclui grandes mamíferos, como a onça-pintada |
Legados do passado
Achados mostram como os primeiros habitantes ocuparam a Amazônia
Arqueólogos do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA) descobriram em 2005, no município de Calçoene, vestígios de uma edificação em pedra que pode ter sido utilizada como observatório astronômico pelos antigos habitantes das Américas. O monumento de 127 blocos de pedra talhada, fincado no solo e arranjado em círculo tornou-se visível depois que um produtor rural derrubou a floresta para abrir pasto. O achado impressiona porque pode contribuir para mudar as teorias sobre a ocupação da região pelos primeiros habitantes do continente.
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| Peças da cultura Maracá refletem as tradições artísticas dos antepassados |
De acordo com os arqueólogos, um monumento com aquelas características só poderia ter sido construído por uma sociedade complexa, com uso de mão-de-obra e conhecimento especializado sobre a observação de fenômenos celestes, principalmente o solstício de inverno. Essa tese se contrapõe às teorias tradicionais, segundo as quais a Amazônia teria sido ocupada por grupos mais simples, pouco populosos e de pobre expressão cultural. Na dúvida, os arqueólogos escavaram a região em busca de novas peças. Encontraram cerâmicas, ossos humanos e restos orgânicos que foram encaminhados para datação. A fazenda foi desapropriada pelo governo estadual e transformada no Parque Arqueológico do Solstício, passando a abrigar uma base de pesquisas do IEPA.
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| Blocos de pedra encontrados em Calçoene podem ser vestígios de um monumento utilizado pelos primeiros habitantes da Amazônia para observar o solstício de inverno |
O Amapá é um campo promissor para descobertas arqueológicas, herança das populações que ocuparam as zonas mais planas e férteis, próximas aos rios, muito tempo antes da chegada dos europeus. Os vestígios indicam que essas culturas surgiram por volta do século 1 e se extinguiram pouco depois do descobrimento do Brasil. No século 19, elas começaram a ser estudadas pelo arqueólogo Domingos Ferreira Penna, que descobriu um sítio arqueológico nas margens do rio Maracá, a 130 km de Macapá, contendo urnas funerárias com formas humanas. No norte do estado, destaca-se a cultura Cunani, pesquisada pela primeira vez em 1895 por Emílio Goeldi, cientista suíço radicado no Pará, que descobriu no local jarros, bandejas, moringas e outras peças decoradas com diversos motivos geométricos.
Povoados redescobertos
Pesquisas reconstroem episódios da luta pelas fronteiras
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| Construída no século 18, a fortaleza de São José defendeu o rio Amazonas |
Por sua localização estratégica, na foz do rio Amazonas, o Amapá teve papel de destaque na proteção do território brasileiro contra a ação de piratas e invasores ingleses, holandeses e franceses. A localidade de Mazagão Velho é um marco da saga dos primeiros colonizadores que chegaram à Amazônia para defendê-la. Nela, pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), convocados pelo governo estadual, encontraram sob o chão da floresta as ruínas da igreja que ali existia no século 18.
O povoado foi construído na selva em 1770 por imigrantes que viviam na cidade de colonização portuguesa no norte da África, chamada Mazagão, e que tiveram de fugir por causa do ataque dos mouros. A vila prosperou, mas depois de inúmeras epidemias foi abandonada e soterrada pelo tempo. Os arqueólogos também encontraram no município de Santana as ruínas de outra cidade soterrada na floresta: Vila Vistoza da Madre de Deus, erguida em 1767.
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| Em Amapá, há ruínas de uma base da 2a Guerra |
A construção de cidades na floresta era uma política de Marquês de Pombal para ocupar a região e fazer frente aos inimigos. Na defesa do território brasileiro, destaca-se a Fortaleza de São José, construída em 1782 à beira do rio Amazonas em Macapá. Tombado pelo patrimônio histórico, o prédio teve seu entorno revitalizado por meio de um projeto de urbanização.
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| Vestígios de uma cidade erguida na floresta pelos colonizadores, descoberta em Mazagão |
A história das disputas pelo território no Amapá vai além. No norte do estado, a vila de Cunani, município de Calçoene, preserva as histórias dos tempos em que a região, entre 1841 e 1900, era zona neutra entre Brasil e França – o chamado Contestado Franco-Brasileiro. Aquela parte do território era foco de batalhas sangrentas por jazidas de ouro. Cunani, centro dos conflitos, hoje uma comunidade descendente de um antigo quilombo, chegou a ser declarada república independente com bandeira e até moeda próprias.
Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, o Amapá voltou a se destacar pela posição geográfica estratégica, ao abrigar uma base militar americana, na cidade de Amapá. As ruínas das antigas estruturas, que serviam à vigilância daquela parte do Atlântico pelas forças aliadas, estão lá até hoje, abertas para visitação.
Afirmação da identidade
Comunidades valorizam herança de arte, rituais, culinária e festas
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| Descedentes de quilombos preservam o marabaixo, tradição que nasceu nos navios negreiros |
O Amapá é hoje palco de diversos projetos que buscam o resgate da sua identidade cultural, com base no conceito de “amapalidade”. Trata-se de um movimento destinado a fortalecer manifestações que nasceram e passaram de geração em geração dentro do território amapaense. O esforço tem como objetivo valorizar as heranças da pré-história e da história mais recente, expressas nas danças, na música, no artesanato e na gastronomia, para que se perpetuem entre os mais jovens.
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| Na gastronomia, destaca-se o pitu, crustáceo dos rios regionais |
O artesanato é marcado pela herança indígena. Bandejas, jarros, cestos e outros objetos de decoração são produzidos pelos designers e artesãos com formas geométricas inspiradas nos grafismos típicos das peças arqueológicas encontradas em Cunani e Maracá. Com apoio do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), o artesanato amapaense está ganhando qualidade e conquistando espaços nas lojas de grandes centros urbanos. A instituição incentiva também a gastronomia, com a promoção de festivais que dão um toque de sofisticação aos cardápios regionais, como o camarão no bafo ou a caldeirada de filhote, um peixe típico dos rios da região.
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| O artesanato se inspira nos grafismos cunani e maracá |
Entre as tradições culturais mais significativas está o marabaixo. O ritual nasceu dentro dos navios negreiros que chegaram ao Amapá. Durante a viagem, muitos escravos morriam por causa das epidemias e eram jogados ao mar. Suas almas eram louvadas por cantos de lamento ao som de batuques. Ao longo dos séculos, a tradição se preservou, aliando a veneração dos orixás e as ladainhas aos santos católicos. O ritual é embalado por ritmos de tambores, dança e gengibirra – uma mistura de cachaça, gengibre e açúcar. É ponto alto nas festas religiosas do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade. Em Mazagão, a dança faz parte dos festejos de São Tiago, no mês de agosto, nos quais os moradores relembram as batalhas entre mouros e cristãos que marcaram a história de seus antepassados.
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